domingo, 29 de agosto de 2010

Património natural e cultural espera visitantes na Serra d’Arga

Património natural e cultural são os trunfos que a Serra d’Arga tem para atrair os visitantes. Com a reabertura do Centro de Interpretação da Serra d’Arga esta área ficou ainda mais atractiva, uma vez que os turistas têm apoio para planear as suas actividades, que podem ir desde um percurso pedestre até desportos radicais. Vale a pena partir à descoberta... 


© Luísa Teresa Ribeiro

«Dem saúda-vos». É assim que o visitante que acaba de deixar a A28, na saída Arga São João/Dem, é recebido ao chegar à Serra d’Arga. Este é o ponto de partida para uma subida em direcção às Argas (São João d’Arga, Arga de Baixo e Arga de Cima), no concelho de Caminha.

Os olhos vão-se acostumando à paisagem à medida que se sobe na estrada com bastantes curvas que serpenteia o monte. O amarelo do tojo e das plantas invasoras – austrálias ou mimosas – destacam-se numa paisagem onde predomina o cinzento das rochas, pincelado pelo verde da vegetação, muita dela rasteira.

Do outro lado do “pai Minho”, que corre lá ao fundo em direcção ao Atlântico, o monte galego de Santa Tecla olha para a denominada “montanha santa”, uma designação que, segundo o guia de bolso da Serra d’Arga, com textos de Emanuel de Oliveira e Pedro Rita, advirá de, durante séculos, ter «permanecido inacessível e afastada dos olhares humanos» ou de «ter servido de abrigo a eremitas e anacoretas».

O primeiro objectivo é chegar ao Centro de Interpretação da Serra d’Arga (CISA), em Arga de Baixo, uma estrutura que reabriu no ano passado, depois de quatro anos encerrada. Na sequência dos grandes incêndios que atingiram o concelho de Caminha em 2005, o CISA foi encerrado e assim permaneceu até Junho de 2009.

A Câmara Municipal de Caminha procedeu à realização das obras necessárias para reabrir a antiga casa florestal, que foi adaptada em 2001 para o apoio aos visitantes da Serra d’Arga. A intervenção incluiu a substituição dos sistemas de abastecimento de energia eléctrica e de água, bem como da rede de comunicações.

Ao mesmo tempo, o projecto foi ampliado, com a criação de uma horta pedagógica e de um espaço para as ervas aromáticas junto àquele edifício, áreas que são importantes instrumentos para o trabalho com o público escolar.

O centro é, segundo a edilidade, uma estrutura «orientada para o desenvolvimento de actividades de educação ambiental, divulgação e promoção do património ambiental e cultural da Serra d’Arga, bem como para o turismo de natureza».

Este é o ponto de partida ideal para quem quer explorar a Serra, pois concentra todas as informações sobre as actividades que se podem desenvolver neste espaço, promovendo ele próprio iniciativas regulares, como trilhos pedestres (actualmente estão sinalizados os trilhos do “Cabeço do Meio Dia”, da “Pedra Alçada”, da “Chã Grande” e da “Chã da Franqueira”) ou visitas para as escolas.

Serra d’Arga integrada na Rede Natura 


Depois de alguns quilómetros, surge a dúvida sobre qual o caminho certo para chegar ao CISA e se ainda faltará muito. Eis que junto a um ribeiro se avistam três idosas, de enxada na mão, momentaneamente em posição de descanso da árdua tarefa de cortar mato, enquanto põem a conversa em dia. Certamente que poderão ajudar.

Pára-se o carro. Ao abrir a porta tem-se consciência do profundo silêncio no qual o monte está mergulhado, surpreendente para ouvidos habituados ao bulício da cidade.

A ligeira brisa provoca um arrepio, enquanto os pulmões se habituam ao ar puro. A Serra d’Arga está integrada na Rede Natura (PTCON 0039), sendo que este sítio abrange os concelhos de Caminha, Ponte de Lima e Viana do Castelo, ocupando 4.500 hectares.

© Luísa Teresa Ribeiro

Desfeitas as dúvidas – «sempre em frente, que ainda falta», tinham dito as senhoras –, prossegue-se a marcha. Mais à frente, olhando para o lado esquerdo, avista-se ao longe o Mosteiro de S. João, um dos elementos mais conhecidos da Serra d’Arga, sobretudo pela romaria que tem o seu ponto alto de 28 para 29 de Agosto e que atrai milhares de visitantes, rodeado por uma das maiores e mais ricas manchas florestais destas montanhas.

Mesmo na berma da estrada, do lado esquerdo, uma antiga casa florestal degradada quebra a harmonia da paisagem. Quantas construções deste género haverá espalhadas pelos montes a degradarem-se mais a cada dia que passa? 


© Luísa Teresa Ribeiro
(Foto com algum tempo, pelo que a casa deve estar ainda mais degrada)

Finalmente, avista-se a placa a indicar o CISA, onde minuto depois há-de chegar a EB1 de Vilar de Mouros, para uma visita à serra. O vice-presidente da Câmara Municipal de Caminha, Flamiano Martins, refere que, depois da reabertura, o centro de interpretação tem apostado no relacionamento com as escolas, preferencialmente com as do concelho, mas está igualmente aberto a todos os estabelecimentos de ensino que ali queiram desenvolver actividades.

Para além das actividades para as escolas, que podem ir desde o ciclo do pão até à floresta autóctone, esta estrutura desenvolve iniciativas para o público em geral. Depois da realização de quatro percursos pedestres, desde Janeiro, o CISA promove a 22 de Maio um ateliê de plantas comestíveis, a 6 de Junho assinalou o aniversário da reabertura e a 26 de Junho realizou um ateliê de plantas aromáticas.

A turma alinha-se em frente à antiga casa florestal para um dia diferente de aprendizagem. Depois de uma explicação prévia, entra-se no CISA, que apresenta painéis sobre o território, a paisagem, o património, a população, a fauna e a flora.

A chefe de Divisão do Ambiente da autarquia caminhense, Angelina Cunha, que lidera a visita, juntamente com Ventura Gonçalves, apresenta numa linguagem adaptada aos mais pequenos uma panorâmica sobre este território, desde as características geológicas até à ocupação humana, sem esquecer os usos e costumes.

A partir de um tear, de produtos típicos, como os enchidos ou o mel, que podem ser adquiridos, e de uma vitrina com minerais, os visitantes ficam a conhecer os usos e costumes da envelhecida população serrana, desde os tempos em que vivia quase em isolamento, subsistindo sobretudo à custa do que a terra produzia, passando pelos tempos áureos da exploração mineira.

Segue-se uma visita à horta pedagógica, criada no local onde antigamente existia a horta do guarda florestal, que tem um edifício de apoio que inclui um forno, que permite cozer pão ou assar o típico cabrito segundo os moldes tradicionais.

Moinhos testemunham antigo modo de vida


© Luísa Teresa Ribeiro

 No terreno, depois do lanche, os meninos da EB1 de Vilar de Mouros, muitos dos quais nunca tinham ido à Serra d’Arga, vão ver sobretudo moinhos, que antigamente eram muito abundantes, com intensa utilização, mas que agora estão quase todos votados ao abandono.

Segundo a documentação do CISA, a ocupação da montanha começou na época dos Descobrimentos portugueses, condicionando a paisagem. Nos finais do século XV e inícios do século XVI, quando Caminha e Viana se transformam em portos importantes, é introduzida no Alto Minho a cultura do milho, proveniente do continente americano. Com este novo alimento, surgiu a necessidade de construir moinhos junto aos principais cursos de água e, geralmente, em locais de difícil acesso.

Actualmente, o único moinho em funcionamento é o do Ribeiro, em Arga de Baixo. Os moinhos da Gândara ou Gandra, situados na margem do regato da Fraga, em frente ao lugar de Gandra, foram recuperados, mas ainda não moem. Entre os moinhos mais conhecidos estão os do Covão, tendo um o telhado em lajes de granito e outro em lajes de xisto, havendo a data “1898” gravada no seu interior. Este interessante núcleo aguarda obras de recuperação.

© Luísa Teresa Ribeiro

O CISA está a incentivar a recuperação dos moinhos, mas a dispersão dos herdeiros, o envelhecimento da população e o local onde muitos deles estão implantados tem dificultado a concretização deste objectivo.

Também ligada à cultura do milho está à construção dos espigueiros ou canastros de pedra, que se encontram dispersos pela serra e que são um dos pontos de interesse para quem quiser ficar a conhecer a Serra d’Arga. Estas construções têm características que variam de freguesia para freguesia.

Embora alguns estivessem à espera de plantar árvores e de mexer na terra, os meninos mostram-se entusiasmados com a rota dos moinhos. Beatriz diz que estava com «curiosidade» sobre o que a esperava na Serra d’Arga e que não ficou defraudada. «Estou a aprender», assegura. Também Andreia destaca a descoberta de «plantas e árvores novas» nesta aula ao ar livre, em plena montanha. Para as duas, foi uma novidade a entrada num moinho e a descoberta do engenho que faz com que a força da água transforme o milho em farinha.

Construções com engenho e arte

Quem percorre estes montes depressa fica consciente da importância da pecuária na vida das populações. Uma vaca ou um rebanho de ovelhas a andar estrada fora ou garranos a pastar no monte, com as “pás” do parque eólico em pano de fundo, ainda hoje são uma realidade na Serra D’Arga.

Da mesma forma, também é possível encontrar idosas a carregar um carrinho cheio de tojo ou a conduzir um tractor, uma vez que a agricultura e a pecuária são essenciais neste espaço desertificado e envelhecido.

Ali existe uma série de “abrigos” – construções toscas, arredondadas, feitas de pedras sobrepostas – que serviam para os caçadores que andavam no encalço dos lobos – neste território há vestígios da existência de quatro fojos do lobo – ou para os pastores pernoitarem.

Ao percorrer os núcleos habitacionais é obrigatório reparar na estrutura das casas típicas, resultado daquilo que, no guia de bolso da Serra d’Arga, é apelidado de «arquitectura sem arquitectos». Muitas habitações estão degradadas, mas há bons exemplos de como é possível actualizar o legado histórico sem o adulterar de forma irreparável.

As vedações das quintas e dos campos são feitas de xisto encastelado, o que dá uma rara beleza à paisagem, a juntar ao efeito dado pelas zonas onde há socalcos.

A serra muda com as estações do ano, apresentando a vegetação rasteira florida na Primavera e um aspecto mais agreste no Inverno, quando a água dos ribeiros se enfurece e o seu barulho faz eco na montanha.

Outro dos motivos de atracção desta serra são os pontões (destinados apenas à passagem de pessoas e animais) e as pontes (travessias que permitissem também a passagem de carros de bois). Uma das mais emblemáticas é a Ponte das Traves, em Arga de Baixo, feita com enormes lajes, tanto na base como nos lados, que se apoiam em penedos. Ainda em Arga de Baixo, perto do moinho do Ribeiro, existe a ponte Porto Carro.

Em Arga de Cima, existe o Pontão do Lobo. Esta travessia é feita de grandes pedras encaixadas umas nas outras, de tal maneira que o redondo formado pelas rochas se assemelha à curvatura do lombo de um lobo.

Quem ruma até à Serra d’Arga pode fazer actividades mais radicais, como rafting ou escalada. No Verão pode-se ver arte, na Casa do Marco, em Arga de Baixo, com a iniciativa “Arte na Leira”.
 © Luísa Teresa Ribeiro

Deixando as Argas para trás, parte-se à descoberta de Dem, com paragem obrigatória na capela da Senhora da Serra ou Senhora das Neves, que tem nas imediações um parque de merendas e proporciona uma vista magnífica sobre a parte litoral.

Santa com trajes minhotos


Depois da passagem pelo ateliê de Lurdes das Carvalhas, que se notabilizou a fazer trajes tradicionais, ruma-se a São Lourenço da Montaria, já no concelho de Viana do Castelo. O objectivo é subir, para chegar à Senhora do Minho, local obrigatório para quem vai para aquelas paragens.

As atracções principais deste local – para além da paisagem e da experiência de subir o monte – são a pequena ermida e o santuário de Nossa Senhora do Minho, um sonho que levou quase sete décadas a concretizar e que custou cerca de meio milhão de euros.

A imagem de Nossa Senhora do Minho enverga um tradicional “traje à vianesa” – fato vermelho de festa da lavradeira minhota –, com um manto azul pelas costas, e tem na mão duas espigas de milho.

O alojamento na serra é escasso, mas há uma casa de turismo de habitação em São João d’Arga – a Casa das Pires – e o refúgio de montanha, dos Celtas do Minho. Espaço imperdível é a Taberna do Horácio, em Arga de Baixo, um espaço já mítico na Serra d’Arga. Um farnel é algo a não esquecer para quem tenciona ficar algum tempo nas montanhas, a par de roupa e calçado apropriado. E, depois, pés ao caminho...

Reportagem publicada no Diário do Minho, de 19 de Abril de 2010. Mais fotos aqui.

Aproveitar potencialidades turísticas


 © Luísa Teresa Ribeiro

 A existência de uma rede composta por quatro trilhos facilita a descoberta da Serra d’Arga em condições de maior segurança, mas as actividades neste espaço não se limitam aos percursos.

A actividade mineira que foi desenvolvida nestas montanha – e ainda há empresas a manifestarem o interesse de estudar a viabilidade da exploração – é uma das área que tem potencial para ser aproveitada.

Da mesma forma, a Serra d’Arga é uma formação interessante do ponto de vista geológico, uma área que poderá atrair público especializado.

O trabalho “Serra d’Arga: a marca como vector de desenvolvimento”, apresentado por Andreia Pereira, Madalena Silva e Ricardo Pereira, no VII Congresso Ibérico de Estudos Rurais, que decorreu em Coimbra, defende que a potencialidade turística da Serra d’Arga se encontrava «subaproveitada».

Estes especialistas aconselhavam à aplicação «uma estratégia de marketing que privilegie a procura de novos consumidores sem descurar os poucos, mas sempre importantes, já existentes; o desenvolvimento de novos produtos turísticos e o aperfeiçoamento dos actuais, bem como uma boa divulgação de ambos».

«Defendemos que no posicionamento estratégico da Serra d’Arga face ao mercado deve constar uma atitude de líder naquilo em que única e inovadora (paisagem construída, riqueza patrimonial, a título exemplificativo) e uma atitude de seguidora em outros produtos onde o factor novidade não está tão presente (rede de trilhos pedestres, valores ambientais)», afirmam.

Reportagem publicada no Diário do Minho, de 19 de Abril de 2010. Mais fotos aqui.

Câmaras planeiam projecto para valorizar a Serra d’Arga

As câmaras municipais de Caminha, Viana do Castelo e Ponte de Lima estão a elaborar um projecto que tem por objectivo valorizar os recursos da Serra d’Arga. A revelação é feita pelo vice-presidente da autarquia de Caminha. Em entrevista ao Diário do Minho, Flamiano Martins (FM) lamenta ainda não ter obtido resposta em relação ao pedido feito para a cedência das casas da floresta, que estão cada vez mais degradadas. Este responsável também defende alterações à legislação relativa à organização da floresta.

 © Luísa Teresa Ribeiro

DM – O Centro de Interpretação da Serra d’Arga (CISA) esteve encerrado durante vários anos. Esta reabertura é definitiva e com novo fôlego?
FM – É uma reabertura definitiva e com a possibilidade de desenvolvimento de um projecto mais abrangente para a Serra d’Arga e até alargado a outros municípios. Estamos em contacto com os municípios de Viana do Castelo e de Ponte de Lima para, em conjunto, fazermos um projecto para a Serra d’Arga, que privilegie a oferta dos produtos que esta área tem.

DM – Em que consiste o projecto?

FM – Ainda não é projecto. Para já, ainda está em pré-projecto. Os técnicos das três câmaras estão a trabalhar para desenharem o projecto. O objectivo é avançar o mais depressa possível. Pensamos que no final deste ano já haja uma proposta do que se quer para esta área. Estamos também a ver formas de financiamento que podemos obter, nomeadamente do Quadro de Referência Estratégico Nacional (QREN) e de outros instrumentos financeiros à disposição dos municípios.

Basicamente, o projecto consistirá em dar a conhecer os produtos que a Serra pode oferecer: circuito natural (que é o que salta mais à vista), religioso, mineiro – esta também é uma área importante e que também engloba o concelho de Vila Nova de Cerveira –, de costumes e tradições. A meta é valorizar tudo o que está ligado à Serra d’Arga, que pode ser um produto turístico bastante interessante no futuro.

DM – Um estudo levado a cabo pela Valimar defendia que a Serra d’Arga reunia condições para ser classificada como Área de Paisagem Protegida de Interesse Local. Essa ideia ainda existe?
FM – Esse é um assunto que vai ser discutido e que está a ser amadurecido. Isso terá de passar também pelo contacto com a população. A população faz parte da serra e, como parte da serra, tem uma palavra a dizer em relação a isso.

DM – Como é que a serra está em termos populacionais?

FM – É uma população muito idosa, mas vamos tentar que haja um rejuvenescimento e que se fixe população jovem com estes projectos que estamos a desenvolver. Já se nota, aliás, mais algum movimento.

DM – Que importância é que tem o CISA para a estratégia turística do concelho?

FM – É importantíssimo porque temos o mar, o rio e o monte. As nossas praias são ventosas e o monte pode servir de complemento à praia, quando esta não estiver convidativa. É também importante para combater a sazonalidade do turismo, pois permite atrair outros visitantes e noutras épocas do ano que não apenas no Verão, para além de proporcionar um dia diferente a quem procura o concelho pelas suas praias.

DM – Existe capacidade de alojamento?

FM – O alojamento é uma lacuna na parte interior do concelho. Temos bastante oferta – talvez ainda não chegue – no litoral, mas na zona interior não temos. Esta é uma área onde temos de apostar.

DM – Essa será uma área onde a Câmara vai investir ou deixará que seja a iniciativa privada a avançar?

FM – Preferia que existisse iniciativa privada, uma vez que as câmaras municipais não estão vocacionadas para explorar espaços hoteleiros. A Câmara tem um papel de sensibilizar o tecido empresarial para que existe uma área de negócio que não está explorada no interior do concelho. Poderá ainda ajudar a encontrar programas de financiamento, na elaboração do projectos ou na tramitação processual.

DM – Há espaços emblemáticos que poderão ser recuperados, como as casas da floresta?
FM – Há muitas casas da floresta, propriedade da antiga Direcção Geral de Florestas, agora Autoridade Florestal Nacional, que se têm vindo a degradar. As pedras grandes estão a ser roubadas. As casas estão praticamente em ruínas, mas poderiam ser recuperadas para a área do alojamento.

DM – Mas é preciso que alguém tome a iniciativa...

FM – Temos solicitado essas casas, e todos os municípios têm feito o mesmo, normalmente para projectos ligados ao turismo. Simplesmente, não dizem sim, nem não. Temos andado nisto durante anos e não temos conseguido obter respostas concretas ou da Direcção Geral do Património ou da Autoridade Florestal Nacional.

DM – A Câmara está interessada em alguma casa florestal?

FM – Estamos interessados e fizemos esse pedido à Direcção Geral do Património, mas ainda não obtivemos resposta. A casa poderia ser para alojamento tipo refúgio ou para outras actividades ligadas à floresta, como centros de interpretação ou como locais para receber os visitantes da montanha. Nós achamos que as casas não devem ser totalmente desligadas do fim para o qual foram construídas.

DM – É difícil manter esta floresta devido às espécies invasoras?

FM – Temos duas espécies invasoras para as quais não temos grandes soluções, que são a longifólia e a háquea. Estamos a desenvolver um projecto baseado no fogo controlado para ver se conseguimos controlar a háquea. A longifólia (austrália) é mais difícil, pois essa espécie exige um controlo contínuo, mas para isso precisávamos de apoios que não está a haver.

Nós estamos preocupados – e temos chamado diversas vezes a atenção da Autoridade Florestal Nacional – para ver se há alguma alteração na lei da criação das Zonas de Intervenção Florestal (ZIF), que são uma espécie de condomínio da floresta, em que a floresta poderá ser entendida num conjunto mais vasto, ou do concelho como um todo ou do concelho dividido em duas áreas, para que pudesse ser gerido de uma forma sustentável, pois com quintinhas pequenas não conseguimos gerir a floresta como deve ser.

Reportagem publicada no Diário do Minho, de 19 de Abril de 2010. Mais fotos aqui.

Família de Dem preserva tradição dos trajes “à lavradeira"

Antigamente, na Serra d’Arga, todas as casas tinham uma “máquina de fazer tecido”, designação que um menino usou ao ver um tear exposto no Centro de Interpretação.Com o fim da necessidade de tecer em casa, a maior parte dos teares formam abandonados ou mesmo desmontados. E, assim, esta actividade tradicional foi-se tornando cada vez menos frequente.

Há, contudo, um ateliê familiar que resistiu ao tempo e continuou a fazer do tear, da tesoura e da agulha uma ocupação complementar ao amanho da terra. A raridade e a qualidade dos trabalhos produzidos acabaram por fazer da oficina das irmãs Lurdes e Florinda Pires, de Dem, uma referência na produção de trajes tradicionais. A filha de Lurdes das Carvalhas (como é mais conhecida), Aida Martins, acabou por se juntar à equipa, dando um novo impulso ao negócio familiar.

Lurdes das Carvalhas, de 72 anos, conta que começou a trabalhar muito nova, obrigada pela necessidade de dar o seu contributo para o sustento da família. Só mais recentemente é que a artesã deixou de cultivar “as leiras” e se dedicou em exclusivo ao ateliê.

O trabalho ganhou fama e esta família mostra com indisfarçável orgulho o motivo pelo qual as peças se tornaram muito procuradas. A preocupação começa logo na procura da lã e dos tecidos mais genuínos e apropriados, mas estas artesãs desabafam que é «cada vez mais difícil arranjar os materiais». Apesar de seguirem os moldes tradicionais, cada peça é única e tem as suas próprias histórias para contar. «Tudo é feito à mão, fio por fio», sublinham.

Do tear da tecedeira Florinda Pires e das mãos de Lurdes e Aida saem fatos domingueiros ou de trabalho, que podem custar de 400 até 800 euros, dependendo do gosto do cliente. «Podem ser mais ou menos ricos», referem as artesãs, confidenciando que os ranchos folclóricos são clientes importantes.

Os vários tipos de fatos à lavradeira – os verdes, os vermelhos, os azuis e os cor de pinhão – são os mais procurados, mas também há quem queira adaptar os motivos tradicionais para peças mais actuais, como coletes bordados para usar com calças de ganga ou outras peças que dão um toque diferenciador, nomeadamente em festas. O ateliê já bordou vestidos de noiva, toalhas e outras peças. «Nota-se que as pessoas estão dar mais valor a este trabalho do que davam aqui há uns anos», assinala Aida Martins.

Reportagem publicada no Diário do Minho, de 19 de Abril de 2010.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Presença na Internet é um desafio que a Igreja deve levar a sério

A Comissão Episcopal Vocações e Ministérios criou um espaço no MySpace, as dioceses de Aveiro, Algarve e Madeira têm contas no Twitter e o Bispo do Porto divulgou as mensagens de Natal e Quaresma no YouTube. Estes são apenas alguns exemplos do que está a ser feito a nível nacional para que a Igreja esteja presente na Internet, uma área que já não é possível ignorar. O caminho que tem sido seguido não é uniforme, traduzindo diferentes entendimentos sobre o papel que a Internet deve desempenhar no anúncio da Boa Nova. Há quem não tenha correio electrónico ou página “online” e uma breve navegação permite perceber as diferenças abismais entre sítios com características dos primórdios da Internet e outros com (quase) todos os recursos da designada “Web 2.0”. A reacção das pessoas aos projectos em que foi feita uma aposta na qualidade do que é posto em linha mostra que esse investimento acaba por ser recompensado. A receita para o sucesso inclui o profissionalismo da estratégia de comunicação e a apreensão das características do meio, de maneira a passar a mensagem de forma adequada. Cada vez mais, a Internet exige da Igreja uma “atitude à Jesus”, ou seja, falar no meio dos homens em pé de igualdade, nomeadamente nas redes sociais. E deixa o desafio para que haja cada vez mais “cristãos upload”, que dão o seu contributo na rede global, e não apenas “cristãos download”, que aproveitam o trabalho dos outros. No dia 24 de Maio assinalou-se o 43.º Dia Mundial das Comunicações Sociais e o Papa Bento XVI propôs como mote para reflexão o tema “Novas tecnologias, novas relações. Promover uma cultura de respeito, de diálogo, de amizade”.

São freiras de clausura, mas não deixam de ter uma página na Internet. Logo que se clica aparece um sítio com a fotografia da comunidade do Carmelo da Imaculada Conceição, da sua “casa” no Bom Jesus, em Braga, e um endereço de correio electrónico. O contacto carmelobraga@carmelitas.pt é usado para as pessoas exporem os seus problemas às carmelitas e para lhes pedirem que os tenham em conta nas suas orações. As religiosas respondem e acompanham o desenrolar das histórias, muitas vezes também por “email”. Para este grupo, a Internet tornou-se num instrumento para comunicar com o exterior e para dar a conhecer ao mundo a congregação. A página, embora muito rudimentar e praticamente sem informação, já tocou o coração de uma mulher, que decidiu tornar-se consagrada de vida contemplativa.

A irmã Maria da Paz de Cristo é uma das religiosas para quem o correio electrónico se tornou numa ferramenta do seu dia-a-dia de trabalho, uma vez que aumentou a rapidez dos contactos e diminuiu os custos. A religiosa tem um “mail” com o seu nome, que usa para comunicar com os outros nove carmelos existentes em Portugal, com os superiores da congregação ou para divulgar junto da comunicação social as actividades que a comunidade promove. Em oito anos de utilização de correio electrónico só recebeu uma mensagem que considerou inadequada, pelo que a apagou imediatamente.

A religiosa sublinha que não perde tempo com a Internet e que os locais por onde navega são criteriosamente seleccionados. «Como temos o tempo muito preenchido, temos de fazer opções de valor. Não temos Internet por ter. A Internet é um instrumento de trabalho. Não nos vamos pôr a pesquisar à toa», explica.

O mesmo se aplica para os programas que a comunidade vê na televisão e para as publicações que recebe. «Temos que seguir certas normas de prudência e não podemos perder tempo. Há muita coisa que não nos interessa. Estes meios podem ser muito bons, mas têm de ser bem utilizados», refere.

Apesar da navegação cautelosa na Internet, a comunidade decidiu avançar com uma página, que inclui fotografias das freiras. No início, algumas pessoas manifestaram-se surpreendidas pela sua existência, uma vez que se trata de uma comunidade de vida contemplativa. No entanto, depressa o sítio se tornou num factor de ligação ao exterior, nomeadamente através do correio electrónico, que progressivamente tem vindo a substituir as cartas. «Sim, devemos manter o recolhimento, a separação do mundo, mas não alhear-nos dele. Devemos tê-lo presente para o entregar a Deus, com todas as preocupações que o envolve», afirma.

A irmã Maria da Paz de Cristo diz que o balanço da existência desta página na Internet é positivo, uma vez que tem servido para divulgar a comunidade, que actualmente é constituída por 18 freiras, tendo a mais nova 36 e a mais velha 91 anos. «Não se pode pretender que as pessoas queiram o que não conhecem», adverte.

A freira destaca que deve ser dada uma atenção muito particular aos jovens, que correm o risco de navegar à deriva por águas perigosas, sem valores que os norteiem. A pensar nos jovens que por ali poderiam passar, as religiosas deixaram um texto escrito especificamente para eles, intitulado “Queres ser feliz?”. E foi, justamente, esse convite que despertou a vocação de uma mulher, que acabaria por se tornar carmelita, e também a curiosidade de um homem. «Deus interpela quando menos se espera», frisa, defendendo que a Igreja deve «dar ensinamentos» para que as novas tecnologias «sejam bem utilizadas».

Cristãos pouco preparados para o debate


Presença muito diferente na Internet tem a Companhia de Jesus, nomeadamente com o portal EsseJota ou o blogue Companhia dos Filósofos. Participante assíduo em debates “online”, o jesuíta Alfredo Dinis defende que a Igreja deve ter uma intervenção activa na Internet, usando uma linguagem adequada ao meio.

O director da Faculdade de Filosofia de Braga considera que esta é uma área fundamental, na medida em que permite chegar a um público diversificado. O professor universitário pensa que é necessário aproveitar meios como os blogues (páginas que qualquer pessoa pode ter gratuitamente e sem que seja necessário possuir conhecimentos de programação, uma vez que os sistemas de criação e edição apresentam passos muitos simples de seguir) para «chegar a pessoas que habitualmente não vão à missa, aos retiros ou a outras actividades, mas que passam por ali e metem conversa».

«A Igreja tem um meio de “compensar” o fenómeno do esvaziamento das igrejas, da falta de pessoas na missa ou do aumento de crianças que não são baptizadas ou não vão à catequese, mas ainda não o levou muito a sério. É uma área que devemos levar mais a sério. Sinto quase uma certa ironia por parte de pessoas que não estão tão voltadas para estes meios, como se isto fosse um passatempo de quem tem ideias modernas», afirma.

Em seu entender, a actividade que tem desenvolvido, quer no blogue da Comunidade Pedro Arrupe, que conta com 22 elementos, 18 dos quais jovens estudantes de Filosofia, quer noutros locais, é de «autêntica catequese». «Não catequese no sentido mais tradicional do termo, de ensinar doutrina às crianças, mas catequese numa perspectiva mais moderna, de explicar com palavras que toda a gente possa entender as questões que mais problemas de compreensão causam, sobretudo aos não cristãos, mas também a muitos cristãos», justifica.

Alfredo Dinis tem participado em debates suscitados por quem discorda das posições da Igreja, como no Portal Ateu, e reconhece que existem graves lacunas ao nível da capacidade de diálogo dos cristãos com os não crentes. «Há cristãos que aparecem a dizer aos não crentes: “acredita no Senhor Jesus e serás salvo” e “vou rezar por ti”. Isso revela que há dificuldade em argumentar e encontrar uma linguagem adequada. Os cristãos não estão preparados para isso, o que é grave. Se queremos continuar a anunciar o Evangelho de Jesus, não podemos estar a repetir esquemas e chavões da nossa catequese», declara.

O académico identifica também um «equívoco», que se verifica mesmo entre «padres e cristãos comprometidos», que é o de se achar que é «uma perda de tempo» o diálogo com os não crentes porque eles não se querem converter. «Como não temos esperança que depois de um certo diálogo estas pessoas venham pedir o baptismo e a confissão, então não vale a pena estarmos a perder tempo com eles. Esta é uma perspectiva muito imediatista do que é a evangelização», explica.

Alfredo Dinis refere que um dos objectivos do blogue Companhia dos Filósofos, que tem aproximadamente 200 visitantes únicos por dia, é a formação para o sacerdócio, treinando «uma atitude, linguagem e maneira de estar com os não crentes que sejam adequadas aos nossos tempos». O docente admite que é um «exercício de humildade» para um padre ser tratado em pé de igualdade nas caixas de comentários ou nos fóruns. «É preciso aprender a estar com as pessoas sem estar num pedestal».

O jesuíta considera que «começa a haver passos muito tímidos» no sentido de corresponder aos desafios dos novos tempos, mesmo por parte da hierarquia da Igreja, com a dinamização das páginas das dioceses ou a colocação de vídeos no YouTube» (a página http://www.youtube.com pode ser usada para ver e colocar gratuitamente vídeos em linha).

Contudo, declara que os responsáveis pela hierarquia «deviam aprender a linguagem da comunicação dos mass media e do público em geral». «Não se pode usar a mesma linguagem quando se está a falar para um jornalista, para um grupo de fiéis na paróquia ou para responsáveis pela pastoral, mas a impressão que eu tenho é que muitas vezes não há diferenças», alerta. Por isso, defende que os bispos e os cristãos com responsabilidades devem «ouvir profissionais acerca da linguagem e argumentação mais adequada a cada caso».

Igreja tem de «fazer algo pelo ser humano»



O professor da Faculdade de Teologia de Braga João Duque defende que «a Igreja tem de estar presente nos sítios onde se dizem coisas». «Pelo menos desde São Paulo que a Igreja tem vindo a usar todos os meios possíveis para dizer o que tem a dizer. Até teve um lugar de topo no desenvolvimento das novas tecnologias», relembra.

João Duque é colaborador da revista digital ecuménica “Cristo e a Cidade”, que surgiu há um ano por iniciativa de Elias Couto, aproveitando «as possibilidades dos novos tempos». A revista procura reflectir sobre as implicações que a fé cristã tem do ponto de vista da cidadania, encarando o cristianismo no contexto urbano. «O nosso compromisso era – e é – não nos ausentarmos da praça pública, onde se decide o presente e o futuro da nossa “cidade”», pode ler-se na página na Internet.

A publicação só existe pelo facto de ser digital, o que diminui os custos. Por outro lado, tem um potencial de distribuição maior, uma vez que é gratuita e pode ser lida em qualquer parte do mundo. No primeiro ano de actividade, a revista digital conquistou uma média mensal de cerca de 600 leitores. «Há um público interno, que poderia ser público de outras revistas do género em papel. Mas temos visitantes que não conseguimos identificar e que poderão ser até não crentes, que nunca passariam pela revista se ela não estivesse “online”», explica.

O docente sublinha o potencial de divulgação que a Internet tem, constatando o seu efeito multiplicador, por exemplo, quando há retiros e outras actividades que são divulgadas “online”. «Há muitos participantes que não teriam vindo se não tivessem encontrado a informação na Internet», afirma.

No entanto, ressalva que «a Igreja tem um sentido mais profundo». «A sua missão não é apenas lançar uma mensagem. Vai mais fundo: fazer algo pelo ser humano. Na sociedade contemporânea há muito a fazer pelo ser humano que não se consegue fazer na Internet. É preciso trabalho de rua, no local, de acompanhamento das pessoas», diz.

O docente universitário recorda que «a Igreja nunca foi especialista em modas», pelo que este «é mais um meio que se introduz» para comunicar. «Sendo este meio muito importante, não se pode esquecer o contacto directo com as pessoas», adverte.

João Duque destaca o trabalho de proximidade que existe, por vezes de contacto quase diário com as pessoas nas paróquias e movimentos, que é um património de valor incalculável: «Seria uma perda do ponto de vista social, e não apenas para a Igreja, se essa ligação deixasse de existir».

O académico refere que a Igreja «não tem medo de participar», contudo admite que ainda há alguns «cristãos comodistas». «Há leigos cristãos suficientemente preparados e elucidados que podem e devem participar sem estarem à espera que sejam os padres ou os bispos a intervir», argumenta.

Em relação à participação de bispos em debates na Internet, o professor aconselha alguma prudência, que se relaciona com «o estatuto da palavra do bispo». «Ao ser-se nomeado para a função de bispo, assume-se o lugar de garante e vigilante da verdade básica da fé», recorda, sustentando que esta tarefa pode não ser inteiramente compatível com os «debates algo livres e descomprometidos» que se mantêm na Internet.


[Publicado no Diário do Minho, 18 de Maio de 2009]

Ecclesia e Conferência Episcopal apresentam novos portais


Um design mais atractivo, mas sobretudo novas funcionalidades de agregação e partilha de informação. Esta é a aposta da Agência Ecclesia e da Conferência Episcopal Portuguesa, que apresentaram na semana passada os seus novos portais, antecipando o 43.º Dia Mundial das Comunicações Sociais.

O portal de informação aposta na conjugação das diferentes plataformas de publicação de conteúdos – texto, áudio e vídeo –, bem como em mecanismos de partilha nas redes sociais, divulgação no Twitter e ligação aos blogues de opinião.

O sítio da Conferência Episcopal também foi alvo de uma reestruturação, para que seja mais fácil encontrar a informação, mesmo por quem não conhece a terminologia específica da Igreja.

Os dois portais têm ligação a uma ferramenta de criação de sítios na Internet para estruturas ligadas à Igreja. Quem aderir a essa possibilidade criada pela empresa “Terra das Ideias” poderá receber automaticamente na sua página as notícias da Ecclesia. Da mesma forma, também as novidades introduzidas nesses sítios chegarão à Ecclesia, que fará a sua divulgação, aumentando a visibilidade.

O director da Agência Ecclesia refere que a mudança, tanto ao nível do aspecto como das ferramentas disponibilizadas, se afigurava «urgente», perante a constante mudança que se verifica no mundo da comunicação.

Desafiado a fazer uma avaliação da presença da Igreja na Internet, Paulo Rocha afirma ser positivo, correspondendo a uma «aposta com mais de dez anos».

O jornalista sublinha que há uma «grande variedade de experiências», algumas das quais aproveitam todo o potencial das novas tecnologias. Contudo, admite que, em alguns casos, «a forma poderia ser ainda mais atraente».

[Publicado no Diário do Minho, 18 de Maio de 2009]

Projectos da Igreja têm de ser cada vez mais profissionais


Diocese de Aveiro está a implementar estratégia estruturada para a Internet

A Igreja já «apanhou o comboio» da presença na Internet, mas está mais próxima da «última carruagem» do que «da primeira classe». A imagem é apresentada pelo responsável pelo projecto de comunicação da Diocese de Aveiro, que depois da renovação do seu sítio avançou com um canal de televisão “online” e com uma conta no Twitter. Após a entrada na designada “Web 2.0”, o plano passa agora por usar as novas tecnologias ao serviço do apoio espiritual.

Fernando Cassola Marques refere que os projectos têm de ser «cada vez mais profissionais» e que «“o qualquer coisa serve” já não é suficiente». Este responsável lamenta que a Igreja tenha «ficado para trás» e que o panorama ainda seja «desolador», embora ressalve que «há exemplos felizes» e que a situação já esteve «bem pior». «Não faz sentido outra coisa que não sejam projectos profissionais, com estratégias pensadas por pessoas que percebam da área da comunicação», afirma.

Foi deste princípio que partiu a Diocese de Aveiro. Depois de uma fase de entusiasmo com a Internet no início da década, o processo estagnou. D. António Francisco dos Santos, antigo Bispo Auxiliar de Braga, foi encontrar uma diocese com muitas lacunas nesta área. A partir daí, Fernando Cassola Marques desenvolveu um plano «coerente do ponto de vista estrutural», para implementar ao longo dos anos. «O objectivo foi criar uma presença regular na Internet, pôr os novos meios tecnológicos ao serviço da evangelização e promover a partilha de ideias», explica este mestrando em novas tecnologias.

Primeiro foi trabalhada a página da diocese, depois veio a Web 2.0 (YouTube e Twitter) e seguir-se-á uma fase mais relacional, que visa mobilizar as pessoas para a participação. Em paralelo estão a decorrer esforços no sentido de aumentar a frequência de actualização da página e a colocação de mais vídeos, em articulação com o “Correio do Vouga”, semanário diocesano.
Este responsável destaca que as pessoas valorizam a interactividade e ferramentas que ainda nem todos os sítios na Internet têm. «A colocação da galeria de fotos acarretou um aumento da procura do “site”», exemplifica.

Não pondo de parte a possibilidade de se poder vir a falar com D. António Francisco dos Santos via Twitter, este profissional com formação em Informática e Teologia refere que as actuais tendências de comunicação «exigem da Igreja uma atitude “à Jesus Cristo”, que comunicava com as pessoas estando no meio delas». «A Igreja não se pode fechar dentro das suas portas. Os senhores bispos têm de acordar para esta realidade», adverte.

[Publicado no Diário do Minho, 18 de Maio de 2009]